O jardim selvagem de Lygia Fagundes Telles
- Leandro Antognoli Caleffi
- 1 de jun. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2025
Por Leandro Caleffi

Lygia Fagundes Telles figura entre as autoras mais reverenciadas do país, dividindo o posto com nomes não menos consagrados, como os de Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e Cecília Meireles. Celebrada nacional e internacionalmente, a chamada “dama da literatura brasileira” coleciona diversas condecorações, dentre as quais se destacam o Prêmio Jabuti, atribuído a ela em 1966, por Histórias escolhidas (1961), e em 1974 e 2001, por As meninas (1973) e Invenção e memória (2000), respectivamente; o Prêmio Machado de Assis em 1998; o Prêmio Camões em 2005, além da indicação ao Prêmio Nobel de Literatura em 2016.
Embora tais honrarias atestem o talento inegável da escritora, essas distinções pouco ou nada dizem ao leitor mediano, cujo repertório cultural tende a não ser balizado pelos reconhecimentos formais concedidos a sujeitos e a obras relevantes no campo da literatura. Sendo assim, uma pergunta se impõe: para além do exposto, a que exatamente se deve à comoção produzida pelas narrativas lygianas nos mais diversos públicos? Ou ainda: em que medida os textos da ficcionista consistem em uma expressão singular no panorama da tradição literária brasileira?
Longe de esgotar tais questões, cuja complexidade excede os limites deste breve artigo, é possível afirmar que uma das particularidades do estilo da escritora corresponde à maneira peculiar com que ela trabalha o cotidiano ou aquilo que se convencionou chamar de “realidade”1. Segundo o mais importante crítico literário do país, Lygia “teve o alto mérito de obter, no romance e no conto, a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela, sem recurso a qualquer truque ou traço carregado, na linguagem ou na caracterização”2. Parafraseando Antonio Candido, pode-se dizer que é por meio de uma escrita relativamente objetiva e realista que a autora desentranha o que há de mais absurdo e inusitado na experiência humana.
Dessa contradição entre forma e conteúdo desponta aquilo que pode ser compreendido como um dos maiores êxitos do fazer artístico de Telles: o fato de suas narrativas serem acessíveis a um conjunto bastante amplo de indivíduos, ao mesmo tempo em que essa simplicidade não se alinha a uma concepção simplista da existência. Dito de outro modo: ainda que do ponto de vista linguístico suas obras não causem grandes desafios em quem as lê, o receptor é a todo momento impactado pelos temas algo desconcertantes que elas colocam em cena, levando-o à problematização do senso comum a partir da reavaliação de valores socialmente consolidados.

No âmbito específico do conto, gênero em que a autora mais se destacou, é comum que as tramas partam de um dado banal da vida diária e cheguem a um desfecho imprevisível ou até mesmo perturbador, fato que aproxima a ficcionista de Edgar Allan Poe e de Machado de Assis, cujas influências foram estudadas por parte considerável da crítica especializada. Em “O noivo”, por exemplo, o que é narrado não são os motivos pelos quais o protagonista decide se casar; antes, o que se observa é o total desconhecimento por parte da personagem sobre as razões subjacentes ao matrimônio. Ao final da história, apenas Miguel sabe quem é sua esposa; ao leitor restam um estado de incerteza e a incômoda constatação de que nem tudo carece de uma explicação lógica. Em “Venha ver o pôr do sol”, a acepção supostamente romântica aludida pelo título da narrativa cede espaço à crueldade de uma vingança planejada de maneira minuciosa por um ex-namorado enciumado. Esse aprisiona a antiga companheira no subsolo de um cemitério abandonado, a fim de que ela pague o preço por tê-lo trocado por um homem mais bem-sucedido. No texto, Raquel só consegue ver efetivamente o anoitecer através das frestas na porta carcomida do local onde foi trancada por aquele em quem um dia confiou. Tal fato leva o leitor à inquietante conclusão de que jamais se conhece alguém por inteiro.
No bizarro conto “As formigas”, duas jovens se deparam com uma caixa de ossos de um anão em um pensionato, os quais são misteriosamente reconstruídos ao cair da noite, fazendo com que o receptor não saiba ao certo os limites entre o real e o imaginado. O conto termina sem uma resposta definitiva, provocando um acentuado desconforto e estranhamento em quem o lê. Não seria absurdo supor que o mistério que paira sobre os insetos e a montagem do esqueleto funciona como uma espécie de metáfora de algo maior, qual seja, a fragilidade da razão em face do desconhecido e do incontrolável. Em “Antes do baile verde”, o clima da euforia carnavalesca é contraposto a um dilema moral, obrigando a personagem a escolher entre seguir os anseios individuais e ir à festa de carnaval ou ceder às convenções sociais e ficar em casa com o pai à beira da morte. Ao fim, Tatisa opta por abandonar o progenitor, atitude que obriga a protagonista a confrontar a complexidade dos vínculos de parentesco e encarar o egoísmo como parte integrante da condição humana. Nesse sentido, o fato de Tatisa deixar o pai desamparado revela a vulnerabilidade dos laços familiares, os quais, muitas vezes, são unicamente moldados por necessidades e interesses pessoais e não por uma entrega genuína efetiva, levando o leitor a ponderar sobre suas próprias relações e decisões no que diz respeito ao outro.
Em “O menino”, o núcleo familiar estruturado é substituído por uma interação edipiana entre mãe e filho, a qual é abalada pela suposta infidelidade conjugal desta, testemunhada por aquele em uma sessão de cinema, na qual um homem desconhecido acaricia de forma suspeita a esposa do seu pai. A aparente traição da mãe força o filho a reconsiderar o papel dela em sua vida e a questionar o amor materno, colocando em xeque a confiança que ele tinha nessa figura e no conceito de família como alicerce social. Trata-se, ao que parece, da transição, por parte da criança, de um mundo de certezas para o seu exato oposto, o que acaba por convidar o leitor a refletir sobre os aspectos ocultos e desoladores do contexto familiar, uma vez que sua dinâmica se mostra mais profunda do que a percepção infantil é capaz de apreender.
Como se buscou demonstrar a partir de alguns exemplos da contística de Lygia Fagundes Telles, as narrativas da escritora, em maior ou menor grau, subvertem o senso comum, ao trazer à tona sua perturbadora contraface. Salvo as devidas especificidades e proporções, o mesmo pode ser entrevisto nos romances, cujos enredos via de regra abarcam a condição deslocada do sujeito feminino em meio a uma estrutura que nega à mulher a plena integração. Tanto Virgínia, em Ciranda de pedra (1954), Raíza, em Verão no aquário (1964), as três estudantes universitárias, em As meninas (1973), quanto a atriz decadente Rosa Ambrósio, em As horas nuas (1989), são, cada uma a seu modo, expressões daquilo que o crítico Alfredo Bosi postulou como “o clima saturado de certas famílias paulistas cujos descendentes não têm mais norte”3.
Isso posto, não seria exagero tomar de empréstimo do conto homônimo a expressão paradoxal “jardim selvagem” para pensar a produção literária de Lygia Fagundes Telles. Como se viu, sua obra transita, de maneira incessante e desprovida de qualquer resolução possível, entre o que é racional e ordenado (“jardim”) e as pulsões inexplicáveis que fogem em tudo ao controle da lógica (“selvagem”). Talvez resida nessa imbricada e complexa relação à verdadeira grandeza do fazer artístico da tão aclamada “dama da literatura brasileira”.
[1]: O crítico literário Alfredo Bosi alega que Lygia opera com uma “decomposição do cotidiano” em sua contística. Ver “A decomposição do cotidiano em contos de Lygia Fagundes Telles”. In: Entre a literatura e a história. São Paulo: Editora 34, 2013. p.
[2]: CANDIDO, Antonio. “A nova narrativa”. In: A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011, p. 249.113-121.
[3]: BOSI, Alfredo. “Lygia Fagundes Telles”. In: História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2013, p. 448.
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Leandro Antognoli Caleffi é professor de Língua Portuguesa no CONSA e Mestre em Literatura Brasileira pela USP. O texto foi uma gentil contribuição para o Itinerário Formativo de Jornalismo e Mídias Digitais — Ensino Médio CONSA — abril de 2025, como parte do projeto da revista Consa em Pauta.
Edição e revisão final: equipe Consa em Pauta.

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