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A arte na formação do estudante [Entrevista com o professor Bruno Baldim]

  • Leonardo Seriacopi Silveira Moraes
  • 24 de nov. de 2025
  • 10 min de leitura

Por Leonardo Seriacopi Silveira Moraes


Apresentação de CCA 2024
Apresentação de CCA 2024

A arte tem um papel fundamental na formação do caráter e do pensamento crítico de um estudante. No entanto, muitas vezes é vista pela sociedade apenas como "lazer pessoal" ou algo "descartável". Contrariando essa visão, o músico Gilberto Gil afirma que "a cultura é a principal ferramenta de transformação da sociedade". Para aprofundar nesse tema, a Consa em Pauta conversou com Bruno Baldim, professor experiente de violão dos Anos Iniciais e Anos Finais do Fundamental, que defende a arte como um pilar na formação dos jovens.


Na visão de Bruno, a importância da arte começa pela compreensão de como ela funciona na sociedade. A imagem que temos de um grupo, um povo ou uma nação é, em essência, o resultado de sua expressão cultural. Nesse sentido, no Consa, a exposição à arte começa cedo. O propósito é ampliar a sensibilidade emocional dos estudantes de forma saudável, ajudando-os a entender como a presença e, principalmente, a prática da arte moldam a mentalidade.


Quando questionado sobre como o contato com a arte influencia a compreensão de temas socioculturais, Baldim ofereceu uma resposta fundamental: a arte funciona como "um retrato da sociedade". Segundo ele, "um artista expressa o que vive tanto na parte emocional quanto na vivência de mundo". Para ilustrar, citou um exemplo provocativo: "Se você mora num país com muito conflito militar, isso estará explícito na sua música". Sua resposta esclarece como a arte reflete nossa realidade e, ao mesmo tempo, se torna uma ferramenta para compreender interações sociais complexas.


Além de ser um retrato da sociedade, a arte também oferece benefícios profundos na formação emocional do estudante. Quando questionado sobre quais habilidades a arte desenvolve, Bruno destacou um aspecto fundamental: "A música é uma atividade que te coloca no presente".


Isso é especialmente importante quando consideramos a ansiedade, que, segundo Bruno, "é na verdade uma fuga do presente". A prática musical exige total concentração e atenção do indivíduo. Para ilustrar o alcance desse benefício, Bruno mencionou a musicoterapia, uma prática que utiliza sons como ferramenta de tratamento psicológico, funcionando como um aliado no combate à ansiedade e dificuldade de concentração.


Assim, a arte revela-se tanto como um meio de expressão pessoal quanto como um exercício de autoconhecimento e regulação emocional, habilidades essenciais na formação de um jovem.


Além dos benefícios individuais, Bruno também destacou a dimensão coletiva da arte. A música em banda, segundo ele, é um excelente exemplo de como a arte desenvolve habilidades sociais. "Você tem a sua hora de tocar e a sua hora de se colocar e você precisa saber esperar isso", explica, ilustrando como cada membro de um grupo tem um papel a cumprir. O profissional também fez questão de enfatizar o entendimento de que ‘’ensino de música é coletivo, ele não é individual’’, referindo-se justamente ao fato de que ‘’cada um tem a sua função e todo mundo colabora para um bem comum, que é a música que tá sendo praticada naquela hora’’, afirmando que não se deve comparar as habilidades de cada membro de um grupo, mas, sim, entender como cada um colabora para uma construção musical, cumprindo suas respectivas funções, ensinando aos estudantes os valores do trabalho em equipe, cooperação e responsabilidade compartilhadas.


A experiência de Bruno com a música desde jovem o levou a compreender algo essencial: para ele, a expressão pessoal dos sentimentos é o cerne da educação artística. "Meu maior objetivo com o ensino da arte é que o meu estudante consiga se expressar utilizando a música como linguagem", afirma com convicção.


Essa declaração encapsula uma verdade profunda sobre a arte: ela é o meio pelo qual expressamos os aspectos emocionais, intelectuais, religiosos e materiais que diferenciam uma sociedade da outra. Diferentemente de textos e cálculos, a arte transmite uma linguagem exclusivamente pessoal, aquela que cada criador infunde em sua obra. Por isso, a exposição a diferentes expressões culturais é fundamental para desenvolver uma compreensão crítica do mundo.


Fica claro, portanto, que a arte não é um complemento superficial na educação, mas um pilar essencial na formação integral do estudante. Ela molda percepções, desenvolve competências emocionais e estimula a consciência social, transformando como os jovens compreendem o mundo e a si mesmos.


Para aprofundar essa discussão e conhecer mais sobre a visão de Bruno Baldim sobre educação artística, convidamos você a ler a entrevista completa a seguir, onde ele aborda questões fundamentais sobre o papel da arte na vida dos estudantes.



Confira a entrevista na íntegra

LEONARDO: Quando você elabora sua aula, qual o seu principal objetivo que você busca alcançar com os alunos?

BRUNO: Cara, depende da turma, né? Então, a gente tem os objetivos específicos com cada turma, faixa etária, principalmente. Então, por exemplo, uma criança que está no primeiro ano, entendemos que ela tem que viver a música e perceber os parâmetros musicais. A partir do momento que você consegue perceber o som nas suas mais diferentes nuances,  você vai conseguir trabalhar com ele. Para cada série, vemos quais são as necessidades  e aí a gente traça os objetivos. Eu procuro sempre , independente da faixa etária, o meu maior objetivo, que o meu estudante consiga se expressar utilizando a música como linguagem. Então, independente se ele vai tocar um xilofone, um pandeiro ou um violão, na hora que ele pegar aquele instrumento na mão, se ele conseguir expressar o que ele está sentindo na forma de som, na forma de música,  sinto que o meu objetivo foi alcançado. 


LEONARDO: Acho que a parte mais importante mesmo é realmente a expressão, porque é o que faz a música, é o que constrói a música, a expressão. 

BRUNO: É, então, muita gente apenas toca notas, né? E eu aprendi ao longo da minha vida que o interessante não é o que você toca, ou seja, não importa quais notas, mas como você toca essas notas.


LEONARDO: E quando você tem algum aluno que é impaciente, que não quer aprender o passo a passo, não quer fazer o exercício básico, quer começar a fazer o que um profissional faz, ensinar música desenvolve outras habilidades além da arte nos alunos?

BRUNO: A música é uma atividade que te coloca no presente. Geralmente as pessoas têm ansiedade, a ansiedade é na verdade uma fuga do presente, na minha opinião, você se preocupa com algo que está por vir, só que ainda não chegou. Ou então, você fica preso em algum passado que já passou, algum fato que já passou. Então, isso não é legal. E quanto mais atividades a gente fizer que nos coloque no presente, que não dê tempo de pensar em outra coisa, melhor. Se você tocar uma música e tentar tocar direito, você não consegue pensar em mais nada além daquilo. exige muita concentração, muita atenção, tanto na parte da escuta ativa, quanto na hora de você se expressar. Então, eu acho que ela [a música] coloca a gente no presente, assim como tantas outras. Por exemplo, se você faz uma corrida na rua, você tem que prestar atenção na calçada, no buraco, na rua, no carro, no movimento... E não dá tempo de você pensar em outra coisa, isso coloca a gente no presente. Eu acho que a música é uma excelente ferramenta para isso. E, aí, essas questões como ansiedade, como questões emocionais mesmo, elas tendem a melhorar por conta disso. Acredito piamente que música é uma terapia, hoje em dia ela é enxergada como remédio, tanto é que você tem um curso chamado musicoterapia.


LEONARDO: Sim, é bem legal a forma que eles colocam esse curso em prática.

BRUNO: Eu acho que assim, os benefícios são claros e, com certeza, eu sei quando eu pego algum estudante que tem alguma dessas características que você falou. O simples fato de trabalhar música já ajuda nisso, né? Por exemplo, quando você faz música coletiva, você tem a sua hora de tocar e a sua hora de se colocar e você precisa saber esperar isso. Então tudo, eu acho que assim, tudo colabora. Ah, e uma coisa importante também, quando a gente fala de escola, é muito importante frisar que o ensino de música é coletivo, ele não é individual. E isso, na minha opinião, é essencial, para formar um estudante. A comparação é como se a gente aprendesse a viver em comunidade, sabe? Só que isso é uma comunidade musical, né? Onde cada um tem a sua função e todo mundo colabora para um bem comum, que é a música que tá sendo praticada naquela hora. 


LEONARDO: Exato. Você pode tocar quantas músicas forem... Pode tocar um álbum inteiro sozinho, todas as músicas. Pode tocar com um playback até, mas enquanto você não tocar com banda, você não vai conseguir entender realmente a dinâmica da música. 

BRUNO: É isso, cara, é isso. E é legal porque você coloca todo o seu conhecimento, toda a sua vivência em prática, né? Você tem que escutar o outro para saber como se colocar. Enfim, eu acho super legal essa troca que a gente faz falando de música. 


LEONARDO: Eu acho que uma importância muito forte na música é a mensagem que consegue passar, como a intensidade, a forma que se toca, entre em contato com a letra da música, com a crítica da música, especialmente quando é uma música mais política. Eu acho que, dependendo da mudança de cultura da música, ela proporciona muito um conhecimento geral sobre o mundo. Como você acha que o contato com a arte como um todo influencia a compreensão  de temas socioculturais? 

BRUNO: É inevitável, a gente tem uma verdade que é que a arte é um retrato da sociedade, tanto é que os movimentos artísticos são comuns quando você pensa na arte do período barroco, eles se expressam tanto na pintura, quanto na escultura, quanto na música, então um artista expressa o que ele vive tanto na parte emocional quanto na parte de vivência de mundo. Se você mora num país onde tem muito conflito militar, por exemplo, na hora de fazer uma música, aquilo vai estar explícito na tua música, mas de uma forma que não tem nem como negar, sabe? Por exemplo, os compositores nordestinos, né? Que vieram do sertão. É inevitável eles falarem de seca e tem obras lindíssimas falando disso. Então, tudo que a gente sente, tudo que a gente vive, aquilo passa para a nossa arte. Inclusive, muitas pessoas que são instrumentistas profissionais, a maioria deles, pelo menos aqueles que você vê tocando bem, todos eles defendem que não adianta você praticar música 24 horas por dia(seria o máximo, né?) Enfim, não é ‘’quanto mais prática ao instrumento, melhor eu vou tocar’’, até porque, se música expressa um sentimento na forma de som, se você não sente, é muito difícil você conseguir se expressar, Então você tem que sentir alegria, tristeza, frustração, porque a partir do momento que você experimenta sentimentos, isso vai passar pra tua música. Caso contrário... a tua música vai ficar uma simples sequência de notas e aí entra naquele caso de músicas que te emocionam e música que não. Tem gente que toca que não te toca em nada, em absolutamente nada, você escuta e aquilo não te mexe, agora tem pessoas que tocam três notas e dá vontade de chorar. É por isso, porque ela está expressando alguma coisa e a outra não. Agora, só expressa quem vive! 


LEONARDO: Eu acho que isso é algo que as pessoas tendem a não entender tanto sobre música. Uma pessoa menos interessada em música acaba usando mais como som de fundo. Tem muita gente que acaba não entendendo a importância. Você acha que a arte é ainda muito subvalorizada no meio escolar? 

BRUNO: Cara, eu acho que sim, mas a gente vem tendo melhoras. Eu acho que, pensando historicamente, eu tiro por mim, sabe? Eu fiz o Fundamental I e, para mim, eu tinha uma ‘’tia’’. Era a ‘’tia’’ que dava aula de artes. Era um curso chamado Educação Artística em que o profissional compreendia as três linguagens, ou seja, Educação Musical, Artes Cênicas e Artes Plásticas. O ano que eu entrei na faculdade foi 2005. O meu curso, por exemplo, foi a primeira turma na UNESP que fez licenciatura em Educação Musical. Então, naquele ano, o curso de educação artística se desmembrou em três linguagens. Ou seja, você tem um profissional, um educador específico em música, um educador especialista em teatro, um educador especialista em artes plásticas, artes visuais que eles chamam. O salto começou aí. O Ministério da Educação enxergar que, para formar alguém bem, você precisa de três profissionais, um especialista em cada linguagem. Agora, o que a gente está ainda longe do ideal é colocar isso em prática... Seria muito legal que, desde o Infantil até o Ensino Médio, você tivesse contato com as três linguagens. Inclusive que as artes fossem integradas em um espetáculo, sabe? Que tivesse um espetáculo cênico musical,? Porque, cara, a linguagem muda tudo. Eu acho que, quanto mais linguagem você tiver para poder expressar o que você sente, melhor você vai viver a arte. Não sei se uma pessoa que só fez música como arte, a partir do momento que ela experimenta pintar, por exemplo, ela vai acessar outros sentimentos, vai acessar outras camadas de expressão. Então, eu acho que melhorou, mas pode melhorar mais. 


LEONARDO: Eu entendo e concordo. Eu sinto também que falta muito isso. Eu sinto falta de fazer  CCA Eu  acho que literatura é, ainda, a única forma que sobra pra gente [Ensino Médio) de cultura. 

BRUNO: A verdade é essa, sabe? A escola tem uma carga horária para cumprir também, tem que colocar todas as necessidades pedagógicas e disciplinas que você precisa para se formar, então é muito complicado esse quebra-cabeça que a escola tem que fazer. 


LEONARDO: Bruno, para finalizar, o que que te motiva como um todo a continuar ensinando a música, a arte? 

BRUNO: Cara, o que que me motiva? Olha, é assim, eu me descobri educador depois de eu ter escolhido a educação. Quando eu escolhi o meu curso, eu não tinha consciência do que eu ia fazer efetivamente com ele, sabe? Só que, depois que eu entrei na profissão, aí que meus olhos abriram pra isso. E assim, a música sempre foi uma paixão para mim desde muito novo. Eu comecei a fazer aula de música muito novo. Mas aliar esse gosto pela arte da música à educação é o que me motiva. Pensar que esse meu amor pela música, quando eu estou em uma sala de aula, contribui para a formação de um indivíduo, de um ser humano, de uma vida, sabe? É isso que me motiva. Então, saber que durante o percurso que o estudante está comigo, eu faço parte de um período da vida dele, e de um período que ele está se formando, para mim é de uma responsabilidade ímpar. Quando eu penso que isso forma um ser humano, é parte da formação de um ser humano, essa é a minha maior motivação. E entender que cada ser humano, que passa pela minha sala de aula, tem uma necessidade específica, uma deficiência e uma habilidade. Ele é único. Como exaltar as habilidades dele e trabalhar as deficiências? Essa é a minha maior preocupação.


LEONARDO: Eu acho que saber que o que você está fazendo está contribuindo para a construção de uma pessoa é muito impactante. 

BRUNO: E um dos meus objetivos também, Léo, sinceramente, que os meus estudantes valorizem a arte. respeitem os artistas... Eu sou professor de violão... Eu tenho certeza que muitos que passam ali, tiveram uma experiência muito válida... Mas não continuarão tocando violão... Mas que, num futuro, eles se sensibilizem... Se um dia um estudante meu... Por exemplo... tiver numa cadeira de deputado, que ele tenha um olhar diferente e que valorize a arte, a arte-educação, os espaços de arte.. É sensibilizar o meu estudante para que ele enxergue a arte e para que ele dê o devido valor que ela merece. Eu acho que a arte forma pessoas muito mais políticas e muito mais sensíveis do que qualquer um que está no poder hoje em dia. Ela é necessária. A gente é o que a gente sente!


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