Olha que talento!
- Maria Carolina Shimura de Freitas Oliveira
- 24 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2025
O conto abaixo foi escrito por uma estudante dos Anos Finais do Ensino Fundamental como parte de uma produção textual do componente curricular de Língua Portuguesa. A proposta era continuar um trecho previamente fornecido, e o resultado impressionou pela qualidade narrativa e criatividade! Por isso, convidamos a autora do oitavo ano a compartilhar sua história aqui no Cantinho Literário da Consa em Pauta. Parabéns para a escritora, que nos lembra como contar histórias pode ser emocionante e gratidão por compartilhá-lo conosco!
Confira abaixo este conto de suspense!
Confusão
Por Maria Carolina Shimura de Freitas Oliveira
“Era a última caixa que eu carregava. Cheia de objetos pessoais, bugigangas acumuladas por vários anos. Esparramei tudo em cima da mesa, tinha que achar um lugar para arrumar cada uma. No fundo da caixa, encontrei uma moldura com uma foto que eu não lembrava mais que existia, a única coisa que me sobrou dos tempos de faculdade. Coloquei o quadro em cima do balcão da cozinha, foi o lugar que me pareceu mais apropriado no momento. Pelo menos até que eu arrumasse toda a mudança.
A casa não era grande, mas nos fundos tinha um galpão. O acesso se dava pelo lado de fora, e podia ser utilizado como depósito de velharias. Eu sempre tive dificuldade de me desfazer das coisas antigas. Fiquei exausto de tanto trabalhar sozinho, nem vi a noite chegar, e já era hora de trancar as portas e descansar. Pela janela da sala avistei uma pequena mala esquecida lá fora, e saí pela cozinha em direção à rua. Ao me aproximar, percebi a porta do galpão entreaberta, e lá de dentro, um ruído.”*
Tentei ignorar o som vindo do galpão, mas a tensão crescia em meu peito como um aperto sufocante. Peguei a mala rapidamente, decidindo a entrar logo e esquecer aquilo. Mas a curiosidade me corroía. Minhas mãos suavam, meu coração acelerava. Larguei a mala em um canto da sala de estar e, quase sem perceber, andei em direção à porta entreaberta, como se estivesse sendo atraído a entrar e descobrir o que havia ali dentro.
O ar parecia mais frio ali. Engoli em seco e estendi a mão trêmula para alcançar a maçaneta, empurrando a porta cautelosamente. No centro daquele cômodo escuro, vi algo que não deveria estar ali: um baú envelhecido, sua madeira escura desgastada pelo tempo. Senti um aperto no peito. Eu não me lembrava de tê-lo trazido.
Dei um passo hesitante. A tampa estava semicerrada, como se alguém tivesse mexido ali recentemente. Estendi as mãos devagar, sentindo um arrepio percorrer minha espinha. Mas, antes que pudesse tocar a madeira fria, uma sensação estranha me envolveu — a de que alguém me vigiava. Minha respiração falhou. Meu instinto gritava para correr, mas meus pés estavam como que presos ao chão.
Dentro do baú, havia um diário empoeirado e um quadro. O mesmo quadro que eu havia deixado sobre o balcão. Meu coração disparou. Meu sangue gelou. Peguei o diário com os dedos trêmulos. As páginas estavam todas rasgadas, exceto por uma única folha intacta. Meus olhos se arregalaram ao perceber a data no topo: 20 de novembro de 1993. Exatamente há vinte anos.
Voltei-me para o quadro. Nele, um grupo de jovens sorria para a câmera, provavelmente estudantes de uma faculdade. Mas algo estava errado. Havia um espaço — uma cadeira sem dono. Alguém deveria estar ali. Um aperto forte tomou meu peito. Uma onda de lembranças há muito perdidas parecia querer voltar e ocupar minha mente. Algo dentro de mim gritava: uma culpa sem nome, um temor que eu não compreendia. Meus dedos apertaram o diário com força. O que eu havia feito? Talvez eu já soubesse.
A sensação de ser observado se intensificou. O ar ficou denso, pesado. Um frio cortante me percorreu. Lentamente, virei-me. Ali, na escuridão, alguém estava parado, me vigiando.
Aproximei-me e pude reconhecê-lo. Era um rosto familiar. Na verdade, era o meu próprio rosto, vinte anos mais jovem. Meus olhos — sem vida — refletiam um passado esquecido. Talvez estivesse ali para me assombrar pelo que fiz. O medo explodiu dentro de mim. Aquele rosto me causava repulsa, misturada a uma tempestade de pavor. Com o medo, tropecei para trás e caí no corredor, batendo a cabeça.
Acordei em meu quarto, com a luz iluminando meu rosto. A respiração ofegante ecoava em meus ouvidos. Levantei-me zonzo e caminhei até a sala. O quadro ainda estava lá, intocado. Corri até o galpão. A porta estava trancada. Quando a destranquei, o interior estava vazio. Sem baú, sem diário. Olhei para fora: a mala ainda estava lá, exatamente como antes.
Minhas mãos tremiam. Tudo aquilo foi real? Ou apenas um sonho?
O vento frio soprou pelo quintal, e um calafrio percorreu meu corpo.

