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A difícil escolha da profissão: professores e estudantes relatam dúvidas, pressões e caminhos possíveis

  • Lara Fogaça Pascoa da Silva
  • 24 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Indecisão, comparação e saúde mental tornam o processo mais complexo para os jovens. Professores e alunos explicam como encontrar o próprio caminho.


Por Lara Fogaça Pascoa da Silva


Estudantes do Ensino Médio orientados por professora
Estudantes do Ensino Médio orientados por professora

A escolha de uma profissão ainda no Ensino Médio é um dos momentos mais desafiadores da vida escolar. Enquanto alguns estudantes demonstram precocidade na decisão, a maioria enfrenta um turbilhão de dúvidas, mudanças de rota e, em muitos casos, esgotamento emocional. A expectativa social de que todos deveriam ter uma resposta definitiva aos 17 anos intensifica a pressão e afeta diretamente a saúde mental dos jovens.

Professores e alunos entrevistados relatam que esse processo é, na prática, bem mais complexo do que costumam mostrar.


Comparação e ansiedade: uma realidade da geração atual


As redes sociais intensificam a comparação ao exibir recortes idealizados da vida de outras pessoas, incluindo conquistas acadêmicas, aprovações em vestibulares e carreiras aparentemente bem definidas. Essa exposição constante cria a ilusão de que todos já descobriram seu caminho, menos o próprio estudante. Ao ver colegas anunciando aprovações, participando de cursos, acumulando certificados ou demonstrando segurança sobre o futuro, muitos jovens passam a acreditar que estão “atrasados” ou “ficando para trás”. Essa sensação de inadequação afeta diretamente a saúde mental, alimentando ansiedade, autocobrança excessiva e a falsa ideia de que a escolha profissional precisa ser imediata e perfeita.


A professora Marcela Vedolin, profissional em Biologia e referência para diversas turmas ao longo do ano, observa como essa pressão tem se tornado cada vez mais presente na rotina dos estudantes.


"Na minha época não existiam redes sociais para se comparar. Fui por exclusão: eu não era das humanas, nem das exatas puras, então segui para a área biológica."

Apesar de ter encontrado o curso ideal, Marcela reconhece que a pressão por resultados imediatos a levou à exaustão.


"No final do ano eu estava exausta. Se pudesse voltar, teria me dosado mais. Estudar é importante, mas descanso e autocuidado também", afirma.


O depoimento da professora sublinha um ponto crucial: a saúde mental é parte integrante do processo de escolha. A ansiedade e a exaustão demonstram que a busca por uma carreira não deve culminar no adoecimento para atender a expectativas externas.


Quando gostar de tudo dificulta a escolha


A indecisão nem sempre está ligada à ausência de afinidade; em muitos casos, ela aparece justamente quando o estudante se interessa por diferentes áreas. O professor Luciano Costa, de Química, cuja trajetória inclui mudanças e descobertas ao longo do caminho, recorda que sua própria escolha profissional começou marcada por essa mesma incerteza.


"Eu era muito indeciso. Gostava de várias matérias. Por um tempo, achei que seguiria Contabilidade, porque já trabalhava na área."

Após prestar vestibular, ingressar em um curso e desistir, Luciano encontrou seu caminho ao ter contato com a faculdade de Farmácia de sua então namorada.


"Comecei a ajudar nos relatórios e experimentos, gostei e fiz um curso técnico. No final, prestei Farmácia Bioquímica", relata.


Essa perspectiva também é compartilhada por outros professores entrevistados. Muitas vezes, a mudança de rota não representa fracasso, mas um passo necessário para encontrar um caminho mais alinhado aos próprios interesses, como veremos a seguir.


Mudar faz parte do processo


Muitos jovens sentem-se pressionados a "não errar". Contudo, a experiência mostra que a mudança pode levar a caminhos mais satisfatórios. Esse aprendizado — de que não preciso acertar de primeira — também marca a trajetória do professor Gustavo Franzolin, formado em Biologia. Diferentemente de Luciano, sua mudança de rota foi mais tardia, mas igualmente reveladora.


"Eu já havia decidido. Porém, não passei na primeira tentativa e fui fazer cursinho."


Durante o cursinho, ele descobriu um interesse pela pesquisa em Biologia e trocou de área. Hoje, ele afirma que a mudança foi ideal:


"O curso na UNIFESP me ofereceu exatamente o que eu buscava. Fiz iniciação científica e me encontrei."


A história de Gustavo reforça que a escolha profissional não é um ato definitivo, mas um processo contínuo. Mudar de ideia significa amadurecer, e não fracassar.


Vocação precoce e o medo que persiste


Mas nem sempre o problema é a indecisão. Mesmo aqueles que demonstram vocação desde cedo convivem com a insegurança. A estudante Júlia Pecora, do 2º ano do Ensino Médio, pensa em Arquitetura desde a infância.


"Eu gostava de Lego e de criar espaços. Fiz o itinerário de Arquitetura e fiquei mais decidida", conta.


Apesar da direção clara, ela admite inseguranças, especialmente em relação ao mercado de trabalho e às habilidades exigidas.


"Eu não sou muito boa em desenho, mas a ideia de criar algo que um dia existe na vida real me anima. A estética e os materiais me interessam muito."

O relato de Júlia mostra que ter uma direção não elimina a dúvida e a pressão. Gostar de algo não significa estar plenamente confiante, e isso é um sentimento normal.


O peso da escolha e a saúde emocional


Todos os depoimentos dirigem-se ao mesmo ponto: a pressão emocional. O medo de errar, a sensação de estar atrasado e a comparação constante são geradores de ansiedade, cansaço e insegurança.


A professora Marcela enfatiza que o equilíbrio é essencial:

"Vocês precisam estudar, mas também precisam descansar, ter autocuidado, ter lazer."

O professor Luciano lembra que não existe idade certa para o ingresso na universidade:

“Não há regra universal de entrar na faculdade aos 17 ou 18 anos. Cada um tem o seu tempo.”


Por fim, o professor Gustavo defende que a busca pela informação reduz a ansiedade:

"Participar de feiras de profissões, conversar com professores e com profissionais ajuda muito."

As falas demonstram que, embora a escolha profissional seja importante, ela não pode ser um processo que comprometa a saúde emocional do estudante.


Não é necessário decidir tudo agora


A escolha profissional é uma construção, não um evento único. É fundamental que os jovens compreendam que:


É normal mudar de ideia

É normal ter dúvidas

É normal não saber ainda

É normal precisar de ajuda


Mais do que encontrar uma resposta rápida, o importante é o autoconhecimento, a experimentação, a busca por informação e o respeito ao próprio tempo. No fim, nenhum dos entrevistados chegou ao caminho certo por perfeição, mas por tentativa, troca, amadurecimento e vivência da vida real. Essa é a verdadeira jornada profissional.

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